Isabel Soveral & António Chagas Rosa Pas de Deux
Prefácio
Dois universos estéticos, duas histórias da música, duas genealogias. E um iniludível encontro de sensibilidades – imprevisível, privilegiado.
Em Isabel Soveral um fio condutor latente que conduz de Viena a Darmstadt, e desta às grandes obras de Jorge Peixinho e Emamnuel Nunes. O estruturalismo em todo o seu esplendor.
Em António Chagas Rosa uma viagem paralela pela história do século XX, buscando num Schönberg anterior, menos ligado ao ascetismo dodecafónico dos anos vinte que à sumptuosa decadência do cabaré expressionista, póstonal, dos tempos de Pierrot. Menos Viena que Berlim – Schönberg mas também os Weill e Brecht da década seguinte, e o inevitável exílio norte-americano e a aventurosa reinvenção da comédia musical; tudo isto conflui e se depura numa linguagem eminentemente dramática, assumidamente expressiva.
Duas histórias da música, duas genealogias, duas linguagens e, entre elas, a profundidade do encontro, fascinante, imprevisível: na música de Chagas Rosa um figurativismo que através da composição se dissolve em formas e gestos puramente abstractos; na música de Isabel Soveral praticamente o movimento inverso, um gesto abstracto que, através da composição, constitui figuras e formas concretas, que nos habituamos a apreender e identificar.
Duas linguagens e, espontaneamente, na vertigem do acaso, o encontro de dois artistas que, por caminhos travessos, reúnem os fios dispersos de uma história afinal comum. Imprevisível. Fascinante.
Pedro Amaral
Janeiro de 2010
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